10.6.10

Seu Zé Ninguém

Numa certa tarde, destas que caem com a barra da saia vermelha, teimou Seu Zé em ir ver o mar. Partiu sem muita certeza – Ninguém de batismo –, cambaleou os passos e em uma espécie de arrastado, seguiu chiando. Pressentia o desgaste das pedras do calçamento até o pó, a ruína.



Seguia tranqüilo. A chinela sussurrava uma gastura lânguida. Sussurro sem resposta. Atravessava a praça em direção ao ponto de ônibus.



O fiteiro descascado tinha partes que o faziam querer ser, ou, lembravam-no ter sido amarelo; em outro pedaço exibia as matizes que o sol desenhou na tinta azul, e acima da coberta viam-se as letras do verde em contraste com o vermelho que passeavam com sua grafia desaconselhável, mas compreensível, compreendida. Vendia pipocas, doces, cigarros. O último volume de um aparelho de som vibrava estridente os acordes sincopados de um reggae.


Alguém fedia estacionado num banco da praça, com resquícios de um belo porre. O sujeito jurava que o mundo tinha se acabado e que Deus já desistiu da criação que julgara ter reproduzido Sua imagem e semelhança. Segundo a teoria, Ele acabou esquecendo alguns exemplares, que vagavam desatentos, com o privilégio da existência, mas sem o Seu amparo de pai celestial:


– Foi por causa de que a gente bebemu dimais, demu foi muita dispesa, exageremu... e o pió, nos escoramu num cantín carquér, agarramu no sono e o hômi nem enxergou nóis, danou-se por aí... e nóis? um dia ele se alembra... um dia ele se alembra...


Os meninos fardados em bandos remedavam o pobre bebum:


– Um dia ele se alembra! Um dia ele se alembra!


E seguido à gritaria vinham risadas deliciosas, malabares com os livros puídos, empurrões e mais risos.


Seu Zé via, mas não via. Assim contando parece mentira que este turbilhão de estímulos não lhe tocasse.


Tudo haveria de virar pó. Foi o que ele ouviu.


...


O ônibus não demorou. Sentou-se perto do pára-brisa, um apertado medonho, cheio de olhos cansados - as pernas estavam no bonde. Entre estes olhos haviam alguns fitos no horizonte com lábios murmurando pedaços de canções ouvidas em particular, pelo fone.


Seu Zé pensava em umas contas, numa nova televisão que tinha comprado e não conseguia pagar. Se entregasse seria um estardalhaço só: a choradeira dos filhos, as reclamações da esposa com um ar de “eu bem que lhe avisei”. E a mangação dos amigos? Sem falar no dono da loja a humilhar ele, esticando a gravata mal amarrada e falando em coisas que eles não entendiam, mas que os deixariam certos da impossibilidade – capaz de não conseguir devolver.


Logo o mar rasgou o concreto e inundou seu Zé.


Continuou chiando até as jangadas enfileiradas na areia branca.


Sentou-se à beira do mar.


...


Onda vai e onda vem, batia um bocado de sal em seus dedos já enrugados da umidade e ele a teimar que queria ver o mar. Estranho que o desejo que o havia movido até ali não tivesse sido saciado.




A barra da saia mudou de cor, entrou em uns tons: anis, lilas, caiu num azul profundo, quase negrume e o mar, que tinha a cor do caldo doce da cana, cismou de escurecer e refletir em suas marolas o brilha da lua.
E seu Zé a contar as ondas que lhe batiam na canela esperando algum tipo de sensação de ver o mar.
Restou foi a lembrança daquele impulso, da necessidade de estar no mar. A força deste desejo era o mais que lhe havia sobrado.

Um comentário:

  1. Jóia! Que continues com esse seu jeito único de usar as palavras, todo seu!!
    Abraços.

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