Me destes anos dos quais eu não precisava.
E eu tento os entorpecer com porres homéricos, tropeços, paixões adolescentes.
Bebo e enlouqueço e os anos com os quais me presenteastes me fazem chorar a sua morte, sem que tenhas morrido em mim.
Me destes estes anos que não me darão nada do que eu preciso para sobreviver a ti, nem para ser feliz. Necessito, antes, que se derretam e saiam do meu corpo:
- Meu corpo não é mais teu!
Esbarro nestes dias que não vivi.
Brigo, beijo, falo alto e blasfemo ao nosso altar e aos nossos deuses.
Corro sem as minhas pernas e postes imensos rasgam a terra e me partem em duas bandas maiores e muitos pedaços pequenos. Escorro toda em sangue e acordo atropelada, velha e gasta entre os lençóis, querendo ainda mais os teus unguentos.
Banho-me com muito leite e com muito mel. Meus gemidos sussurram convidando à vida algo em mim que esqueci.
Faço do suor água benta e mesmo quando cansada, sem leite e sem mel, desejo teu olhar esquivo e teu sorriso de despertar paixões.
Me destes o peso do tempo e eu preciso de tardes de sol!
Me destes tantos anos, eles sequer passaram e, enquanto isso, me fartei daquilo que não tinha fome para esperar a sobremesa.
Meu Amor me fez perder a voz, e já não tem forças para expurgar estes anos de mim.
Me destes estes anos, leva-os de volta, por favor.
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